Pesquisa Connect Fecomércio apresenta cenário das bets no Espírito Santo e mostra impactos sobre consumo e saúde mental

Estudo revela que só em junho de 2026, foram movimentados R$ 397 milhões em 7,34 milhões de apostas no Estado

A expansão das apostas on-line no Espírito Santo já representa um fenômeno com impactos que ultrapassam o entretenimento e alcançam o orçamento das famílias, o comportamento do consumidor, a economia local e a saúde. É o que mostra o estudo “Bets, Consumo e Saúde Mental no Espírito Santo”, elaborado pelo Connect Fecomércio-ES e lançado no evento “Connect Talk Fecomércio-ES” na manhã desta quarta-feira (30/09).

Clique aqui e confira a pesquisa na íntegra

O vice-presidente José Carlos Bergamin abriu o evento ressaltando a importância da informação de qualidade como ferramenta de gestão. Logo após a sua fala, o coordenador do Connect, André Spalenza apresentou a pesquisa no Auditório da Fecomércio que recebeu dezenas de jornalistas, psicólogos, presidentes de sindicatos, diretores de empresas e profissionais de Recursos Humanos.

O estudo foi realizado pelo Observatório de Pesquisa da Fecomércio-ES Connect criado por meio uma parceria da federação com a FAESA Centro Universitário, Senac, Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI), a Fapes (Fundação de Amparo à Pesquisa e à Inovação) e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti-ES).

Segundo dados do levantamento, estima-se que 380 mil capixabas com 16 anos ou mais realizaram apostas em aplicativos ou sites nos 30 dias anteriores à pesquisa, realizada em 2024, o equivalente a 12% dessa população. Entre os apostadores, a faixa de gasto mais frequente foi de R$ 100 a R$ 499,99, que reúne cerca de 33% do total.

Segundo o coordenador do Connect, André Spalenza, o estudo também mostra que, em 2024, os capixabas que realizaram apostas esportivas gastaram, em média, R$ 212,31 por mês. “Considerando o rendimento médio mensal de R$ 3.320 no Espírito Santo, esse valor corresponde a aproximadamente 6,1% da renda mensal”, aponta Spalenza.

Bets movimentam R$ 397 milhões em um único mês no Espírito Santo

Os dados mais recentes analisados pela pesquisa evidenciam a dimensão alcançada pelo mercado. Em junho de 2026, foram realizadas 7,34 milhões de apostas no Espírito Santo, movimentando aproximadamente R$ 397 milhões. Em comparação com janeiro de 2025, houve crescimento de 47,5% no número de apostas e de 48,5% no valor total apostado.

O levantamento aponta ainda que o fenômeno apresenta forte concentração na Região Metropolitana. Serra, Vila Velha, Vitória e Cariacica responderam, juntas, por 54% das apostas realizadas no Estado em junho de 2026, cerca de 3,95 milhões de apostas. Serra concentrou 16,7% do total, seguida por Vila Velha (14,5%), Vitória (13,3%) e Cariacica (9,3%).

Quando considerado o valor apostado per capita, entretanto, outros municípios também aparecem em destaque. Ibatiba registrou R$ 279 por habitante, o maior valor entre os municípios analisados, enquanto Marechal Floriano alcançou R$ 201,48 e Vitória, R$ 155,38. A média estadual foi de R$ 95,81 por habitante.

Renda familiar é um dos pontos de atenção

A pesquisa chama atenção para o peso que as apostas podem representar no orçamento, principalmente entre famílias com menor renda. Em 2024, cerca de 31 mil capixabas com renda familiar de até dois salários mínimos comprometeram mais de 15% de sua renda familiar com apostas esportivas.

Entre os apostadores pertencentes a famílias com renda de até dois salários mínimos, 59% realizavam apostas de R$ 100 ou mais. O estudo observa que, para famílias com menor margem financeira, gastos recorrentes com apostas podem disputar recursos destinados a outras despesas e reduzir a renda disponível para o consumo de bens e serviços.

Para o comércio e os serviços, esse movimento representa uma possível mudança na composição dos gastos das famílias. De acordo com a análise recursos direcionados às apostas podem reduzir a disponibilidade para outras formas de consumo, especialmente quando os gastos são recorrentes.

Perfil dos apostadores

No cenário nacional, os dados do LENAD III, de 2023, apontam predominância de homens entre os apostadores, que representam 64,8% do total. A maior concentração está na faixa de 25 a 49 anos, que corresponde a 50,6%.

O levantamento estima ainda que 7,3% dos brasileiros com 14 anos ou mais — aproximadamente 10,9 milhões de pessoas — apresentam comportamento de jogo de risco ou problemático, segundo a escala Problem Gambling Severity Index (PGSI). Cerca de 1,4 milhão de brasileiros apresentariam escores compatíveis com provável diagnóstico de Transtorno do Jogo.

Saúde: 564 atendimentos relacionados às apostas no Espírito Santo

A pesquisa também analisa os registros de atendimento relacionados aos problemas decorrentes de jogos e apostas. No Espírito Santo, 564 atendimentos relacionados aos impactos dos jogos de apostas digitais foram registrados entre janeiro e julho de 2026, envolvendo 247 cidadãos. O número de atendimentos superior ao de pessoas indica que parte dos usuários precisou de acompanhamento em mais de uma oportunidade.

Entre os cidadãos atendidos, 72,9% eram homens, enquanto 27,1% eram mulheres. A principal faixa etária foi de 25 a 34 anos, com 38% dos atendidos. Também houve predominância de pessoas pardas (57,1%), com ensino médio completo (50,2%) e sem renda individual (31,6%).

No Brasil, os registros do Ministério da Saúde para os códigos relacionados a jogo patológico e mania de jogo e aposta somaram 10.553 atendimentos no SUS entre janeiro de 2018 e maio de 2025. A pesquisa ressalta, contudo, que esses códigos não identificam automaticamente casos relacionados especificamente às bets, pois abrangem diferentes situações relacionadas ao comportamento de jogo e aposta.

Um fenômeno que ultrapassa o entretenimento

Para a Fecomércio-ES, os dados reforçam a necessidade de acompanhar a evolução das apostas sob diferentes perspectivas. A expansão do mercado interfere não apenas no volume de recursos movimentados, mas também na forma como as famílias distribuem sua renda e no comportamento do consumidor.

A análise aponta que, para o comércio, as bets passaram a disputar uma parcela da renda anteriormente destinada à aquisição de bens e serviços. Ao mesmo tempo, a dimensão da saúde evidencia a necessidade de atenção aos casos em que o comportamento de apostar deixa de ser ocasional e passa a estar associado a dificuldades financeiras, sofrimento psíquico e necessidade de acompanhamento.

O estudo conclui que a expansão das apostas on-line produz efeitos econômicos e sociais que precisam ser acompanhados de forma integrada, considerando mercado, perfil dos apostadores, orçamento familiar, consumo e saúde.

Sobre o estudo

O levantamento “Bets, Consumo e Saúde Mental no Espírito Santo” foi elaborado pela Equipe Connect da Fecomércio-ES e reúne dados de diferentes fontes, incluindo Banco Central, DataSenado, LENAD III, Sistema de Gestão de Apostas, Ministério da Saúde e IBGE. A análise está organizada em dimensões relacionadas ao mercado de apostas no Brasil, ao perfil dos apostadores, à distribuição da atividade nos municípios capixabas e aos impactos sobre saúde e sociedade.


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