Bets movimentam R$ 397,7 milhões em um mês no Espírito Santo

Foram 7,34 milhões de apostas só em junho de 2026. Desde janeiro de 2025, o número de apostas cresceu 47,5%, enquanto o volume financeiro avançou 48,5% segundo levantamento do Connect Fecomércio-ES

A Fecomércio-ES lançou na manhã desta quarta, 30/9, o encontro “Connect Talk Fecomércio-ES” com uma coletiva de imprensa e um debate sobre a pesquisa intitulada “Bets, consumo e saúde mental: perfil dos apostadores e impactos no Brasil e no Espírito Santo”.

Confira aqui a pesquisa na íntegra

O vice-presidente José Carlos Bergamin abriu o evento ressaltando a importância da informação de qualidade como ferramenta de gestão. Logo após a sua fala, o coordenador do Connect, André Spalenza, apresentou a pesquisa no Auditório da Fecomércio que recebeu dezenas de jornalistas, psicólogos, presidentes de sindicatos, diretores de empresas e profissionais de Recursos Humanos.

O estudo foi realizado pelo Observatório de Pesquisa da Fecomércio-ES Connect criado por meio uma parceria da federação com a FAESA Centro Universitário, Senac, Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI), a Fapes (Fundação de Amparo à Pesquisa e à Inovação) e a Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Profissional (Secti-ES).

Após a apresentação da pesquisa, o debate foi aberto com o público presente e contou com a participação de duas profissionais de saúde mental: Martha Zouain, psicóloga, mentora executiva e diretora da Psico Store e Lucélia Aparecida de Paula, psicóloga clínica com atuação voltada aos estudos da impulsividade, compulsividade, recompensa e autorregulação.

“Não estamos lidando apenas com a perda de poder de compra, estamos lidando com um problema silencioso que invade as empresas: o adoecimento mental. O vício em apostas online destrói famílias, gera um endividamento descontrolado e, inevitavelmente, deságua no ambiente corporativo. O trabalhador, quando afetado pela dependência, enfrenta níveis extremos de ansiedade, estresse e depressão. A pesquisa serve para nos ajudar a construir soluções. Investir em dados e cuidar da mente do trabalhador capixaba não é apenas um ato de responsabilidade social, é um imperativo econômico. Proteger as nossas equipes é o caminho para garantir um comércio forte, humano e sustentável”, afirmou o vice-presidente da Fecomércio-ES, José Carlos Bergamin.

O Espírito Santo registrou 7,34 milhões de apostas em junho de 2026, com movimentação financeira de R$ 397,7 milhões no período. Desde janeiro de 2025, o número de apostas cresceu 47,5%, enquanto o volume financeiro avançou 48,5% em dezoito meses.

Sobre o perfil do capixaba apostador, a pesquisa estima que cerca de 380 mil capixabas fizeram apostas, enquanto aproximadamente 70 mil podem ter desembolsado R$ 500 ou mais.

O gasto médio estimado ficou em R$ 212,31, porém os dados mostram diferenças relevantes conforme renda, escolaridade e situação profissional.

Entre famílias com renda de até dois salários-mínimos, cerca de 186,9 mil pessoas aparecem na estimativa de apostadores apresentada pelo levantamento. Nesse grupo, 59% apostaram R$ 100 ou mais, enquanto aproximadamente 31 mil comprometeram mais de 15% da renda familiar.

O coordenador do Connect, André Spalenza afirmou que esse recorte ajuda a medir possíveis efeitos sobre o orçamento familiar e a destinação dos recursos disponíveis.

“Se eu tenho um orçamento familiar de até dois salários-mínimos e mais de R$ 100 vai para apostas, isso pode impactar o consumo. E não estou falando apenas de entretenimento. Muitas vezes, estamos falando do consumo básico dentro de casa, além de comércio e serviços”.

Vício e compulsão

“Essa pesquisa é puro ouro. Ela é de alto valor para nós profissionais de todas as áreas, pois esse desafio é nosso, de toda a sociedade. Agora temos uma dimensão do que as Bets representam no nosso Estado. Como psicóloga, não vejo a proibição total como saída eficaz, afinal, tudo o que é proibido é tentador e gera mais clandestinidade. Sou a favor de um controle maior como, por exemplo, de número de apostas por CPF”, afirmou Martha Zouain, psicóloga e diretora da Psico Store.

A facilidade de acesso às Bets amplia o risco de compulsão e pode alterar o comportamento de parte dos apostadores. Durante a coletiva, a psicóloga clínica Lucélia Aparecida de Paula associou o fenômeno ao sistema cerebral de recompensa e à busca imediata por prazer. Segundo ela, relatos de pacientes mostram semelhanças entre a sensação provocada pelas apostas e aquela descrita por usuários de drogas.

“Pessoas que experimentaram cocaína e hoje experimentam Bets relatam a mesma sensação. Estamos falando do centro de recompensa do cérebro. É como se uma pessoa com vício trabalhasse dentro de um bar e o chefe dissesse: pode beber quando quiser e quanto quiser”. Segundo a psicóloga, esse ambiente facilita respostas rápidas e pode dificultar decisões mais racionais em pessoas vulneráveis à compulsão. Por isso, ela associa a expansão acelerada das apostas também à facilidade tecnológica oferecida pelas plataformas.

Atendimentos no SUS

A Grande Vitória concentrou 54% das apostas realizadas em junho, o equivalente a aproximadamente 3,95 milhões de registros no período analisado. Serra respondeu por 16,7%, seguida por Vila Velha, com 14,5%, Vitória, com 13,3%, e Cariacica, com participação de 9,3%. Fora da região metropolitana, Linhares, Guarapari e Cachoeiro de Itapemirim registraram os maiores volumes de apostas naquele mês.

O estudo também identificou 564 atendimentos relacionados às apostas no SUS capixaba entre janeiro e julho. 247 pessoas de forma recorrente. Entre os atendidos, 72,9% eram homens, enquanto a faixa entre 25 e 34 anos concentrou 38% dos cidadãos assistidos.

“Quando a gente fala desse assunto, fala de economia, comércio e destinação de recursos. Depois, chega ao campo da saúde. Foram 564 atendimentos relacionados às Bets e 247 cidadãos atendidos. Então, é um tema que extrapola consumo e economia e chega à saúde pública”, afirmou Spalenza.

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